Costumo pensar que sem a Chaveirinho,
eu não sou nada. É como se fosse uma "dupla personalidade"? Talvez sim, talvez não. Pra sociedade, faculdade, amigos, família: uma simples garota. Mas dentro de mim ha alguém que as vezes me toma por inteiro, independente de onde eu esteja, Chaveirinho me modifica e meu comportamento muda. A menina que fala pelos cotovelos, ri alto, diz palavrão, curte preguiça, sensível (sou chorona, não aguento um grito), bruta (às vezes), de repente se transforma em alguém de comportamento totalmente oposto: Séria, tom de voz baixo, olhar submisso, forte, disposta (sem preguiça), linguajar brando.
Por ser escrava, ela não é mimada, não é explosiva, não age de cabeça quente, concentrada, observadora, tem qualidades que eu normalmente não tenho. Geralmente nos meus contos, eu coloco alguns esportes: Rugby, Capoeira, Jiujitsu, são esportes que eu realmente pratico no meu dia-a-dia e eu procuro sempre ser a Chaveirinho nessas horas, porque cá entre nós sou uma "dondoca". Como a Chaves (as vezes me chamam assim) é uma escrava, é exigido dela que não erre, não vacile, senão sera punida por isso e esse pensamento me ajuda a crescer no esporte, me desenvolver melhor.
Um dia, Chaves sumiu... tirou ferias, foi pra senzala (não sei se vc já reparou nos meus contos mas eu moro na casa grande), simplesmente eu não conseguia mais ser a Chaveirinho, ela havia ido embora. O problema é a minha família (assim como a do senhor Gray e talvez de muitos por ai), não sabem desse meu lado submisso, e então um dia invadiram minha privacidade e leram alguns dos meus contos. Quase surtei. Fui pro banheiro me tranquei, e vomitei. Passei muito mal, estavam tocando no meu intimo, estavam tocando no meu "eu", estavam mexendo em algo que nem todos podem tocar, tive febre. A principio não entenderam nada, mas foi uma certa confusão e então Chaveirinho se afastou. Em muitos dos meus contos sempre que chaves fica triste (seja como esposa, escrava, filha) ela fica quieta, calada ou fala palavras curtas, se afasta, essa é a minha personalidade real, sempre que entristeço eu me afasto, me isolo, fico quieta.
Dia vai, dia vem, e eu não conseguia mais ser a Chaveirinho, ia treinar e mal conseguia correr, meu corpo não respondia, cansava rápido, errava tudo, parecia que era meu primeiro dia nos esportes. Nao conseguia imaginar um conto sequer, nada me excitava, eu dormia cedo, acordava mais cedo ainda, tédio total, assistia TV, estudava e tal mas parecia que faltava algo. Comecei a não ter mais vontade de praticar esporte, ficava em casa, não tinha mais habilidade com o tatame, com a bola. Eu chamava por ela, mas parece que ela não escutava.
Então fui procurar por ela, se um escravo não esta na casa grande ou esta pela fazenda, na senzala ou fugiu. Não acreditei que ela havia fugido. Então fui procura-la na senzala, era em tudo que eu conseguia pensar, sai de casa e fui treinar capoeira. Eu gingava toda desengonçada, não conseguia acertar os golpes, mesmo os mais simples, eu ficava chamando por ela em meu pensamento: -Chaveirinho eu preciso de você. Onde vc esta?
Silencio total. Sem resposta. eu já estava quase desistindo, achei que ela tinha me abandonado. Foi quando o professor chamou pra começar a roda. E então ele pegou o berimbau, eu mais uma vez chamei: - Chaveirinhooooo! - Em meus pensamentos. Eu não ia arriscar entrar na roda sem ao menos saber gingar. E então ele começou a tocar, aquele toque inicial antes da musica em que o berimbau vibra rapidamente, parece um chamado e ai eu tive uma sensação: meu corpo arrepiou, sorri. Coração pulsou forte, fechei os olhos e abri lentamente, Chaveirinho estava de volta.
Eu estava certa, ela estava mesmo na "senzala". Entrei na roda, joguei com todo meu coração e novamente, chorei, mas dessa vez não de tristeza.
A submissão, o sado, tudo isso, esse mundo BDSM é fascinante. Nao sei se com alguém já aconteceu isso, principalmente com pessoas submissas, você se submeter a alguém sem que essa pessoa saiba, prestar um favor como se fosse uma ordem, falar com ela em um tom de voz baixo, indicando seu respeito e submissão. Você seleciona a pessoa, pelo seu jeito, pela sua personalidade forte e autoritária, seu porte físico e dai você se aproxima dela, cria amizade e vai se "submetendo" sem que ela saiba, apenas em seu pensamento, vai fazendo as coisas que ela pede, como se fosse uma obediência, vai deixando aos poucos ela controlar a situação e você a protege. Não é fácil esconder o lado submisso e o lado dominador, você tenta da melhor maneira possível, mas sempre suas ações vão indicar quem você é. Acredito que todo mundo tem um personagem dentro de si. A maneira como você se comporta, o seu jeito de falar, de se relacionar, revela a sua natureza (dominador ou submisso). Liberte seu personagem interior, descubra-se, deixe fluir. Por muito tempo escondi a Chaveirinho atras de uma liderança de grupo, atras de autoritarismo com algumas pessoa, tentava me impor de alguma forma, eu tinha medo de alguém olhar em meus olhos e ver a Chaveirinho. Programas de TV, por exemplo a novela mulheres apaixonadas com a cena em que Doris apanhou de seu pai, eu criticava, mudava o canal, ou saia da sala, mudava o assunto, tentava desviar o foco pra que ninguém percebesse a Chaveirinho vibrar dentro de mim.
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