domingo, 28 de junho de 2015

Conto 8

Ainda me lembro do nosso primeiro beijo,
 estávamos na cozinha quando ela disse ter uma mancha em meu queixo e se pôs a retirar, então em uma súbita surpresa ela simplesmente me beijou suavemente. Dentro de mim havia uma mistura de adrenalina, encanto e medo. Ela era minha escrava, aliás da minha mãe, ela nos servia dentro de casa, mas era também minha melhor amiga, apesar de nossas vidas serem tão diferentes, eu sempre podia contar com ela quando estava com problemas. Minha mãe sempre me achava uma fraca, dizia que eu não tinha postura de dona, dizia que quando eu assumisse a fazenda, os escravos não me obedeceriam já que eu não tinha autoridade com eles. Minha mãe, Keddy, dizia isso pelo fato de sempre que ela achava que Adda (abreviatura de AddaLucia, a nossa escrava) merecia ser punida, eu sempre estava lá defendendo-a ou então quando minha mãe pedia pra eu castiga-la, eu arrumava uma desculpa para não fazer.

Adda era magra, ela simplesmente desfilava quando andava, parecia um dom já que ela nunca havia estado em uma passarela. Quando nos olhávamos, parecia magica, os olhos dela brilhavam e eu sempre ficava ansiosa para me ver no brilho do olhar dela, Adda simplesmente dominava meus pensamentos. Desde aquele beijo, desde o primeiro beijo eu pude perceber que entre nós não cabia mais amizade, a atitude da escrava para comigo em arriscar-se dessa forma, me encorajou a explodir os meus sentimentos até então resguardados dentro de mim. Eu nunca havia falado a ela sobre meus sentimentos, nunca havia dito que gostava dela muito mais do que como amiga, nunca havia dito o quanto eu me sentia atraída por aquele olhar. Como eu posso descrever os olhos de Adda? Eram castanhos, mas não era um castanho qualquer. Simplesmente quando eu olhava em seus olhos, eles pareciam revelar toda a sua personalidade, e sentimentos. Era como se eu soubesse quem era ela, pelo simples fato de olhar em seus olhos. Depois desse beijo, eu sai correndo e me tranquei em meu quarto, fiquei horas lá pensando o que fazer da minha vida. Minha mãe não suportaria tamanho desgosto, o que a escrava poderia me oferecer de tão especial? Ela era uma escrava, eu era uma princesa como dizia minha mãe. Estudava, tinha tudo que queria, escravos ao meu dispor, podia mandar e desmandar, tinha tudo para ter um suposto futuro feliz, mas será que esse futuro chegaria? Será que valeria a pena correr o risco para viver um momento tão intenso e sincero da minha vida? Talvez eu jamais seria feliz por completo, é fácil esconder um sentimento, aliás é fácil esconder da minha mãe e da sociedade, basta eu fingir que a riqueza me faz feliz, mas não era nada fácil esconder quem eu era de Adda, já que eu nunca precisei falar a ela sobre quem eu era e o que sentia, ela simplesmente sabia. AddaLucia me conhecia mais que a mim mesmo.
- Escrava!!!
- Chamou, Senhora Keddy?
- Coloque o almoço e chame Day para a mesa imediatamente.
Ah como eu sou desligada, esqueci de mencionar que meu nome é Dayanne mas geralmente me chamam de Day. Minha mãe tinha planos pra minha vida, até parece que era ela quem iria viver, planejava minha agenda, me obrigava a ir a reuniões chatas, bailes, todo tipo de evento que envolvesse a elite da cidade. A elite era composta por senhores e senhoras riquíssimos e suas filhas e filhos mimados o que de fato me irritava bastante. Sentei-me a mesa com minha mãe como de costume, Adda estava nos servindo.
- Filha, minha princesa que eu amo tanto!
- xiii quando a senhora fala assim, já sei que lá vem bomba!
- Filha, marquei um jantar amanhã aqui em casa com seu futuro noivo!
- Meu futuro o que??
- Ora filha, ele além de lindo é um cavalheiro e pertence à família Kallaimen’t que por sinal, é um bom partido. Amanhã marcaremos seu casamento.
Ao ouvir isso, Adda se desconcentra e deixa cair o vinho enquanto servia a minha mãe.
- Ta louca, escrava maldita? você manchou o carpete sua imbecil!
- Desculpe, senhora. Foi acidente!
- Acidente é a minha mão na tua cara até ficar a marca dos cinco dedos! Quero meu carpete limpo agora!!!
Na madrugada, alguém bate à minha porta, era Adda. Pedi para que ela entrasse, e quando ela entrou me agarrou de repente, tomei um susto, ela tapou minha boca e pediu q eu me acalmasse. Beijou-me, enquanto me levava a andar para trás ate chegar na cama, ela me abraçou pela cintura e me envolveu em um beijo de língua que eu jamais provei igual, ela conhecia cada curva do meu corpo e deslizava suas mãos vagarosamente pelas minhas costas por baixo da minha blusa. Então ela tirou minha blusa e me deitou na cama, começou a tirar a roupa dela também, me beijou dos pés ao pescoço e sussurrava elogios em meus ouvidos. Meteu a  mão por dentro da minha calcinha e se pôs a me masturbar lentamente, eu estava assustada porém achando tudo muito excitante, eu era virgem. Dai ela me virou de bruços, começou a beijar as minhas costas, colocou a mão tapando minha boca e enfiou dois dedinhos na minha vagina bem devagar ate o final. Dava estocadas enquanto beijava minhas costas, nuca e passava a língua na minha orelha. Então ela removeu os dedos, me deixou de 4 e colocou 3 dedos em minha vagina, socava-os com amor e com firmeza, tirando minha virgindade naquele momento. Pediu para q eu deitasse e abrisse as pernas um pouco, fiz o que mandou e assim ela se abaixou e começou a passar a língua em meu clitores enquanto enfiava dois dedinhos em minha vagina, permaneceu assim ate que gozasse. 

No dia seguinte, minha mãe estava mais ansiosa do que nunca. Não via a hora do meu “pretendente” chegar. Enquanto isso eu rezava para que ele errasse o caminho, mas foi tudo em vão, ele chegou e minha mãe como já era de se esperar ficava bajulando ele. Eu juro que fiz de tudo pra ele me odiar, eu arrotava, tratava ele mal, ignorava, mas ele parecia convicto de que queria mesmo casar-se comigo, até joguei vinho na roupa dele, mas nem isso foi capaz de tira-lo do sério. Mesmo com a visita desse estupido, eu não parava de pensar em Adda e na noite que tivemos. Não parava de pensar em um  momento em seu beijo surpreendente, suas mãos delicadas e suas pegadas vorazes. Enquanto ele e minha mãe sonhavam com o dia do nosso casamento, eu e Adda vivíamos um romance desses de cinema. Nos aventurávamos escondidas da minha mãe e juntas construíamos nossa linda história de amor. Cada vez que eu a beijava, eu podia sentir o mel da sua boca adoçando minha vida, brincávamos de esconde-esconde no jardim, oferecíamos flores uma para outra, admirávamos borboletas, até brincávamos de imaginar desenhos nas nuvens. 
Todos os dias Joseph (meu pretendente), vinha me cortejar. Como sempre eu o tratava mal, na esperança de que ele me abandonasse, mas era em vão. Um dia, Joseph veio à minha casa, porem eu e minha mãe não estávamos, Adda abriu a porta e ele ficou nos aguardando na sala. Daí, como ele é um cretino e filho da mãe, começou a dar em cima da minha namorada, que logicamente o rejeitou. Inclusive ele tentou, força-la um beijo, mas em vão. Joseph foi embora depois disso. Ficou frustrado pois nunca havia sido rejeitado pelas moças da região e no entanto foi duplamente rejeitado por mim e pelo meu amor Adda. No dia seguinte estávamos eu e Adda no jardim conversando, ela encostada em uma arvore e eu no seu colo, nos beijamos. Ouvimos uns aplausos e rapidamente nos afastamos, era o senhor Kallaimen’t que havia nos pegado em flagrante. Mandei Adda sair que eu iria me resolver com ele.
O olhar do garoto parecia de um ódio mortal, mas ele permanecia frio enquanto eu tentava me explicar. Ele me interrompeu e sugeriu um acordo, a princípio eu discordei, mas depois vi que não tinha alternativa. Joseph Kallaimen’t planejava se vingar de Adda por sua rejeição. Ele me deu um anel e pus no dedo, depois mostrei para minha mãe como havíamos combinado. A felicidade da minha mãe era contagiante, até parece que havia ganhado um prêmio.
Durante a madrugada Adda me procurou como de costume, eu a tratei normal mas meu coração estava apertado.
- Amor, o que vc tem?
- Nada...
- Conheço esse teu nada. E as vezes ele significa tudo.
- Percebeu ne? Olha, Adda eu conversei com Joseph e dei um jeito em tudo, não se preocupe. Mas quero que você confie em mim, não importa o que aconteça.
- Eu confio amor, de olhos fechados, eu confio.
No dia seguinte, assim como o combinado, eu fui ao quartinho de Adda e sem que ela soubesse coloquei em baixo do travesseiro o anel que Joseph havia me dado. Horas depois, ele chegou para como sempre me cortejar. Perguntou sobre o anel, desconfiada olhei pra ele e pra minha mãe e disse que estava no quarto mas q eu iria buscar. Alguns minutos depois retornei e disse que não havia encontrado o anel no lugar em que eu havia deixado. Eu e minha mãe fomos procura-lo mais uma vez mas nem sinal. Falei a minha mãe que a única pessoa que entrou no meu quarto foi Adda para limpar.
- Adda você o viu o anel que Joseph me deu? Estava aqui pela manhã.
- eu não vi, senhora Day.
- escrava, o anel da minha filha sumiu e você foi a única que entrou aqui hoje.
- Senhora Keddy eu não vi o anel, eu juro!
- eu vou revistar você e seu quarto, se eu encontrar, te mato!
Minha mãe pediu a Adda que tirasse toda a roupa, mas não encontrou o anel, em seguida foi procurar em seu quarto, a essa altura eu já havia mudado de cor de tão nervosa que eu estava. Quando minha mãe se aproximou da cama eu tentei reverter a situação, dizendo que eu iria procurar melhor, talvez estivesse no meio das minhas coisas, mas já era tarde, ela levantou o travesseiro e lá estava ele, lindo e brilhante.
Minha mãe deu uma olhada mortal pra Adda e passou a língua em seus lábios como se estivesse faminta para castiga-la. Adda, com lagrimas nos olhos, me olhou e balançou a cabeça indicando que não havia sido ela, eu não aguentei e abaixei a cabeça, eu sabia que a minha mãe iria bater nela, mas depois tudo iria ficar bem, eu iria cuidar dela e explicar tudo.
Minha mãe levou Adda para uma espécie de porão que ficava no subsolo da nossa casa. Perguntou a ela o motivo dela ter roubado o anel, mas Adda respondeu que não havia feito aquilo. Furiosa, minha mãe começou a pressiona-la através de afogamento, mas ela permanecia alegando que não roubou o anel.
A todo-poderosa Keddy arrastou Adda até uma espécie de pilastra de madeira e colocou uma coleira em seu pescoço, acorrentou-a como se fosse um cachorro. Com um tipo de vara de madeira mais ou menos como se fosse uma bengala, começou a espanca-la. Meu amor aguentava tudo calada e essa atitude manifestava ainda mais ódio na senhora Keddy. Enquanto isso eu estava com os ouvidos grudados na porta e acompanhava tudo por um buraquinho.
- Diga por que fez isso escrava! - Gritou minha mãe.
Silencio.
La fora, Joseph me parabenizava pela atitude e foi embora jurando fidelidade ao acordo. Minha mãe subiu deixando Adda lá. Durante a noite, a Senhora Keddy entrou no porão e com uma mangueira começou a molhar Adda com jatos fortes de agua. A agua batia no corpo dela e a machucava ainda mais, depois disso, aplicou outra surra em Adda, dessa vez com uma vara mais fina.
No dia seguinte, eu aguardava minha mãe acordar ansiosamente para que ela tirasse meu amor do castigo. Esperei em vão. Minha mãe desceu novamente onde ela, Adda tremia de frio por causa da roupa molhada em seu corpo. Com uma régua larga de madeira, dona Keddy batia nas mãos de Adda que deveria manter os braços esticados para frente enquanto apanhava, ganhou uns tapas e também alguns chutes.
Mais algumas horas se passam, minha mãe entra no porão com um copo de agua gelada e bebe na frente de Adda, permitindo que ela contemplasse a agua. Ela permanecia calada e ajoelhada aos pés da minha mãe.
Mais um dia está passando, já estamos no terceiro dia e já é quase noite. Perguntei a minha mãe sobre Adda e a resposta que me foi dada é que a partir dali, ela não fazia mais parte das nossas vidas, ficaria lá para sempre. Minha mãe não podia estar falando sério. Durante a noite eu não conseguia dormir, estava disposta a acabar com aquilo de vez na manhã seguinte, mas nem precisei. Minha mãe estava tirando Adda de lá com ajuda de médicos, ela estava totalmente apagada e quase não tinha pulso. Eu entrei em choque e comecei a quebrar coisas, quando minha mãe se aproximou de mim, eu gritei:
- Eu sou lesbica mãe! Eu não gosto de homens e acabei de perder o amor da minha vida.
- Como é que é? Você o que?
- A senhora ta surda? Eu disse que sou  les-bi-ca e sabe o que mais? Adda era minha namorada e tudo que aconteceu foi minha culpa.
- Seu namorado é o Joseph
- Joseph sabia de mim e Adda. Ele me ameaçou e fizemos um acordo. Coloquei o anel nas coisas dela conforme ele me pediu. Mas eu achei que seria fácil, era só um castigo e pronto, depois eu me explicava a ela e voltaríamos ao normal. Agora ela está entre a vida e a morte e tudo por minha causa.

Eu e minha mãe brigamos, sai de casa e fui até o hospital, Adda estava muito mal mas sobreviveu. Algum tempo depois os médicos liberaram visitas. Quando ela acordou e me viu ao lado dela, ela simplesmente virou o rosto como se não quisesse falar comigo.
- Eu entendo você. Eu poderia ter falado a verdade e acabado com aquela palhaçada, mas eu fui covarde. Por minha causa você quase morreu, mas eu amo você, mesmo que agora não pareça. Eu me deixei dominar pelo medo e não tive coragem de assumir a responsabilidade. Mas entenda, ele me ameaçou eu concordei pq achei que minha mãe iria pegar leve e depois tudo voltaria ao normal.
- Eu vi quando você colocou o anel – ela disse baixinho e sem forças – eu confiei em você até o meu último instante, esperei que falasse a verdade até o último momento. Eu não sabia pq você estava fazendo isso, mas eu confiei. Achei que não iria me decepcionar...
Aquele foi o pior momento da minha vida, mas tudo acabou bem, fizemos as pazes e ao sair do hospital fomos pra casa da mãe de Adda, escrava alforriada da minha mãe. Um dia, ainda não sei como, minha mãe descobriu onde estávamos. A gente se entendeu e eu Adda voltamos pra casa dela. Minha mãe libertou Adda e algum tempo depois nos casamos. Hoje, eu olho pra trás e me lembro de tudo isso, Adda sempre teve razão quando dizia: “No fim tudo ira ficar bem, se não está bem, é pq ainda não chegou ao final.”


FIM

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