domingo, 28 de junho de 2015

Conto 9

“Gosto de apanhar”. Foi isso que eu falei ao...

psicólogo quando me perguntou o que gostava de fazer para me sentir feliz. Minha mãe fez questão que eu procurasse ajuda, ela já não me aguentava mais.
Meu pai sempre acreditava que o melhor caminho era a violência e sempre recorria as tais “surras educativas” e para falar a verdade, por causa dessa teoria que criança/adolescente tem que apanhar pra aprender, foi que eu aprendi. Sim, isso mesmo, aprendi a ser dissimulada e fria. Dissimulada por inventar as maiores mentiras pra não apanhar e fria pq eu não sinto nada pelo meu pai, a não ser desprezo.
Dizem que “pai é pai” e bla bla bla, dizendo ele que se arrependeu do que fez, mas pra mim ele “se arrependeu” tarde demais. Minha mãe também apanhava nas discussões e ela culpava o temperamento explosivo dele, mas de certa forma era conivente com as agressões pois ela usava isso como arma para exigir obediência.

Meu pai era professor de JiuJitsu e minha mãe enfermeira e apesar de ambos de terem nível superior, não escapei desse drama. Me lembro que uma vez eu estava deitada, de olhos fechados, descansando quando ouvi o estralar do cinto e senti uma forte dor na minha perna
- Levanta!
- ai pai, o que fiz?
- Levanta logo que eu não vou falar duas vezes!
Eu me levantei e logo ele me virou de costas e mandou que eu ajoelhasse. Tomei uma surra daquelas que depois você tem que esconder os roxos na escola. O motivo, so vim saber depois:
- você andou entrando em sala de bate-papo no computador
- eu não fiz isso, pai!
- ok, pois então isso vale para não fazer
No fim, descobri que um amigo dos meus pais havia usado o computador e entrado na página. Meus pais tentavam manter a aparência de família estruturada, mas nossos vizinhos sabiam que isso era um disfarce pois eles ouviam os gritos. Eu sempre ficava machucada e como minha mãe era enfermeira ela cuidava de mim para cobrir os machucados e esconder das pessoas.
Eu treinava JiuJitsu com meu pai, ele era faixa preta e tinha uma academia própria. Minha obrigação era limpar a academia e treinar todos os dias, fora isso ganhar campeonatos. Eu era faixa azul, amava o esporte, raramente perdia uma competição. Um dia eu fui lutar o campeonato brasileiro e eram 2 dias de competição, no primeiro dia era a disputa por categoria, ou seja peso, idade e faixa, fiquei em primeiro lugar.
- Filha..
- Oi pai
- Parabéns! Foi uma grande conquista sua! Aqui está um presente para você!
Pela primeira vez meu pai me demonstrou um pouco de carinho jantamos, conversamos bastante, rimos, tiramos fotos e aproveitei para abraça-lo, mas isso só durou até o dia seguinte. A disputa era pelo absoluto, não importava idade ou peso, mas apenas a cor da faixa, comecei ganhando até restarem eu e mais três meninas. No momento da competição eu estava disputando medalha, mas se eu perdesse ficaria em quarto lugar que é o mesmo que nada! Entrei no tatame e estava perdendo por pontos, até que em um momento eu estava prestes a virar o jogo a meu favor, segurei o braço dela enquanto ela tentava se sair. Escutei meu pai gritando: “Quebra esse braço caralho! ” Mas eu não podia fazer isso com ela, eu amava o esporte e ser atleta é algo muito bom, eu adorava treinar então imaginei que se fosse eu, eu não gostaria que a pessoa quebrasse meu braço. Ouvi meu pai gritando: “Quebra!!! Eh você ou ela! Ganha essa luta! ” Mas não tive coragem, então aliviei para que ela se saísse do golpe e assim ela acabou ganhando a luta. Fiquei em quarto lugar, eu já havia ganhado no primeiro dia então tudo bem!
Mas o resultado disso é meu pai nem se importou se eu já tinha conquistado a categoria, apanhei de fios elétricos, me revoltei com isso e o ameacei de denuncia-lo, ele se zangou mais ainda e me espancou até que eu desmaiasse. Quando acordei, estava sob os cuidados da minha mãe e estava disposta a me levantar e ir a uma delegacia, mas meu pai pela primeira vez tomou uma atitude. Ele cuidou de mim e me pediu uma chance para mudar, no começo desconfiei, mas ele chorou, me deu um pouco de carinho e isso foi suficiente para eu desistir da ideia. Nos dias seguintes ele realmente tentava ser mais carinhoso, mas isso só durou 3 dias, quando por um descuido esqueci de trancar a porta de casa. Meu pai me bateu muito, muito mesmo. Minha mãe tentou fazer algo e acabou apanhando também. Depois disso ninguém me segurava mais, ninguém seria capaz de me fazer mudar de ideia de ir à polícia, então minha mãe desesperada e vendo seu casamento desmoronar me mandou para um psicólogo, meu pai novamente pediu desculpas jurou estar arrependido, disse que agiu por impulso. Eu fingi que iria obedece-la para acalma-la, mas assim que sai do consultório, tomei coragem e denunciei meu pai, sai de casa, passei no vestibular, arranjei um emprego e hoje moro com meus amigos da faculdade e nunca mais procurei meus pais.

FIM

Baseado no texto do Blog "Escreva Lola Escreva - Meu pai, meu monstro"

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